

⸺ Lilan Narcissa Frost Bessat ⸺
Lily . 20 . ela/dela . ♣
❛Sinceramente, vorrei che il mondo intero bruciasse. ❜

ㅤ 001 ㅤ :
Lily é fluente em 5 línguas : Inglês, Italiano, Frances, Português e Espanhol.ㅤ 002 ㅤ :
Começou a pilotar com 13 anos e é completamente viciada em carros . Tem uma coleção de carros absurdamente grandeㅤ 003 ㅤ :
Lilian tem 18 Animais de estimação na fazenda
ㅤ 004 ㅤ :
Lily tem o costume de flertar com as pessoas, algumas por interesse em informações, já outras apenas por estar entediada e achar legal.
ㅤ 005 ㅤ :
Lily sempre conseguiu fazer coisas estranhas acontecerem, ouvir as pessoas sem ela nem se quer falar, conseguir persuadir sem esforço, transformar as coisas... mas sempre achou que eram coincidênciasㅤ 006 ㅤ :
Lily não sabe falar dos problemas então desconta na arte, invenções ou surfando sempre que a voz da sua cabeça não a deixa em paz.
ㅤ 007 ㅤ :
Mora em uma fazenda afastada, onde os pensamentos das pessoas não vem com tanta forçaㅤ 008 ㅤ :
Apesar de uma patricinha, Lily é uma pessoa muito ligada a causas sociais.ㅤ 009 ㅤ :
É viciada em coisas vermelhas, em coisas nerds, astronomia e um amor absurdo por animais.ㅤ 010 ㅤ :
Lily é do tipo de pessoa que acredita que amar é deixar ir, ela não acredita ser boa para as pessoas e por isso acaba se afastando não fisicamente, mas emocionalmente .ㅤ 011 ㅤ :
Lily sempre foi uma nerdzinha, sempre com mil e um hobbies (como musica, teatro, mecânica, corridas, surf, etc...), atualmente esta no seu ultimo ano na faculdade de astronomia.
ㅤ 012 ㅤ :
Lily é Baseada na personagem Emma Frostㅤ 013 ㅤ :
Ama adrenalina e se sentir viva

⸺ Biography
Rio de janeiro, Brasil - 15.12.2003 - 00:00Foi nesse dia que a Família Frost ganhou sua segunda filha , Lilian Narcisa Besatt Frost. A família Frost era rica e extremamente influente com sua indústria de tecnologia, nascer nela significava viver em meio de luxo e poder, o sonho de qualquer um né?A menos que você realmente tenha nascido naquela "Família", o lugar que era pra ser o porto seguro, era maior pesadelo dela. Não podia errar, tudo era uma competição, absolutamente tudo e quando seu pai descontava a raiva nos filhos a situação piorava.Lily carrega com sigo peso de memorias que não queria carregar, de uma origem que não queria. Logo quando nasceu, foi utilizada como parte de um ritual, o corpo ja sem vida da garotinha, virou espaço para o espirito de um anjo caído.Com 6 anos, a pequena ja sabia que um erro poderia resultar em usma semana de castigos, ficar trancada no quarto, não poder comer e muito menos fazer qualquer coisa que não fosse favorecer a família. Não crescia como uma criança e sim como um projeto e quando não seguia o projeto como deveria, pagava por isso.Protegia seu irmão mais novo de seu próprio pai, se colocando como culpada de qualquer coisa que o irmão ainda pequeno fazia. Não tinha mais a irmã mais velha, ela tinha fugido e agora lily com 7 anos, tinha que ser quem protegia.Seu pai era lider de um culto, que usava pessoas para seus rituais para entidades do outro lado, porem usava a filha como ajudante, a obrigava a usar seus poderes e atrair essa pessoas, toda a noite o trauma se tornava tão grande, que ela apagava as próprias memorias.Foi apenas aos 8 anos que a vida dela mudou, seus pais após um acidente de avião faleceram, a midia parou, lamentando o sofrimentos dos filhos, nem imaginavam que eles mesmos não estavam sofrendo, mas sim se culpando porque estavam felizes, felizes por serem livres novamente.Foram enviados para um orfanato, seu irmão o pequeno Christian, logo foi adotado, ele era uma criança de 5 anos, amorosa e fofo que vinha junto com uma fortuna, claro que o adotariam. Mas tinha um preço, Lilian teve que apagar ela da memoria do irmão, para que ele conseguisse ir embora.Lily ficou alguns meses la ainda, era uma criança quieta, que sempre analisava cada passo. E foi essa criança que conheceu o seu pai adotivo, um ator de Hollywood, Robert Downey Jr.Lily demorou ainda dois meses sempre esperando uma armadilha, sempre esperando que ele fosse exatamente igual seu pai biológico, mas ele era o completo oposto.Foi o amor de seu novo pai que fez garota finalmente poder ser ela mesma, que fez ela se tornar uma criança cheia de energia e empatia, mesmo com seus traumas que nunca sumiria.
Foi aos 13 anos que uma das maiores paixões da garota começou, as corridas, seu pai não aprovava completamente, mas ele conhecia a filha sabia que ela faria de qualquer jeito, era o jeito dela, sempre foi.Alem da paixão pelas corridas a menina também mostrava suas outras habilidades, como uma criança hiperativa, Robert sempre deixava ela fazer todos os cursos que ela queria, isso resultou em alguns dos talentos dela como : As habilidades com surf, ter aprendido a tocar um monte de instrumentos, aprendeu varias línguas, robótica, engenharia, cursos de desenho/ pintura/ teatro e a principal de todas Astronomia, a grande paixão dela.Foi na adolescência que o lado patricinha dela mais gritava, sempre ligando muito para a própria aparência, deixando tudo do jeitinho dela, mas nunca se tornando mesquinha por conta disso, era mais uma vaidosa consumista mesma.Mas da vida perfeita de Lily teve uma coisa que nunca contou pra ninguém, as coisas estranhas que fazia, o
fato de conseguir ouvir o que as pessoas pensavam , o fato de conseguir de certa forma fazer elas fazerem exatamente o que a loira queria e algumas outras coisas.Aprendeu a controlar, nunca quis essas habilidades, então não as utilizava queria apenas ser normal e é o que ela seria para todos que a visse. Queria as pessoas ao redor dela por gostarem dela e não porque estavam sendo obrigados.Hoje em dia tem 20 anos, é Dona de um laboratório, formada astronomia e mora em uma fazenda, uma pessoa normal aos olhos de todos, apenas a filha de um famoso que nunca se escondeu das câmeras, mas também que nunca foi seu foco em si.

Telepatia: A capacidade de ler mentes alheias e projetar seus próprios pensamentos nessas mesmas mentes.Dentre suas habilidades telepáticas constam: Rajada Psíquicas: É a capacidade de projetar rajadas de força psiônica que afetam a mente da vítima sem efeitos físicos, causando dor, deixando a vítima inconsciente ou até mesmo matando-a.
Manipulação da Memória:Habilidade de manipular a memória de seres vivos, chegando ao ponto de fazê-las esquecer tudo ou parte de suas memórias, dar mais importância a algumas memórias, ou criar memórias falsas.
Ilusão Telepática: Habilidade de criar ilusões telepáticas realísticas e fazer as pessoas vivenciarem eventos que não estão realmente acontecendo.
Controle Mental: É a habilidade de colocar um pensamento na cabeça dos outros para controlar suas ações e raciocínio.
Ventriloquismo: Pode usar sua mente para dominar a mente de outra pessoa, podendo agir com seus próprios pensamentos mas usando o corpo da vítima para falar o que pensar, mas com a voz e pela boca da vítima
Paralisia Mental: Capacidade de induzir paralisia física ou mental temporária.
Alteração Mental: Capacidade de alterar a mente dos outros por pura força de vontade, permanentemente mudando sua personalidade de forma parcial ou totalmente.
Manto Telepático: Capacidade de mascarar sua presença e a dos outros com a telepatia, por exemplo.
Intuitivo Multilinguístico: Com suas habilidades telepaticas ela pode traduzir outras línguas.
Memória Eidética: É a capacidade de armazenar e processar vastas quantidades de informações em sua memória, dando a ela uma capacidade de aprendizagem sobre-humana, essa habilidade pode tornar sua usuária numa verdadeira gênia.
Transferência de Mente:Capacidade de transferir a mente e os poderes dos organismos de acolhimento do usuário, em outro caso o seu próprio corpo físico de ser assassinado.
Projeção astral: A capacidade de deixar seu corpo e viver como espírito, nessa forma ela pode lutar contra outros espíritos, permite também que ela possa projetar energia astral, que serve para ser como ataque psíquico e físico, e poderá projetar com essa energia, (armas, escudos, espadas, etc...).
Possessão': É a capacidade de quando estiver no seu estado de plano astral possuir outros corpos, assim quando seu corpo estiver altamente danificado, ela poderá possuir outros corpos, assim, podendo sobreviver em caso de morte possuindo outro corpo.
ིུ 📽️ 𖥨 Turno 1: A CULPAO que era o amor? Não o amor romantico, um amor ainda mais profundo que esse, o amor que você sente por aquela pessoa que é o seu lar o seu porto seguro. Pra loira o amor era deixar ir e ela aprendeu isso muito cedo...Dia 12 de março, a data sempre voltava como uma lembrança dolorosa pra garota.Ela tinha passado o dia andando de cavalo tentando esquecer que no dia seguinte era o dia do aniversario de seu irmão. Mas ali estava ela, no seu quarto sentada no chão junto com os cachorros, vendo fotos antigas que tinha em seu celular e uma ultima foto, mais recente, um menino loiros de olhos acinzentados e uma cicatriz na bochecha. Christian Frost, o irmão mais novo da garota.O aniversario de 17 anos dele, seria no dia seguinte... ele estava tão grande, quase um adulto. Lilian sabia tudo sobre ele, sabia onde ele estudava, os amigos dele, o primeiro carro que ganhou assim que tirou a habilitação.... Que ele tinha irmãos novos agora e que ainda amava astronomia.Se sentia orgulhosa ao ver o que o pequeno frost tinha se tornado. A foto brilhando no celular dela, ele sorrindo, igual quando tinha 5 anos. As lagrimas escorreram.Orfanato santa menefreda - Doze anos atrasEra dia 11, o dia estava quente como sempre, lily estava afastada em uma casa da arvore que tinha ali, um dos zeladores tinha construído para ela, um lugar onde ela conseguia ficar isolada. O unico lugar do Orfanato onde os pensamentos dos outros não gritavam na mente da garota. Ser uma telepata é lindo na teoria, mas na realidade era horrivel.A memoria ainda era vivida, o gelado da madeira tocando seu corpo, o sol que começava a se pôr esquentando dois corpos, o de chris e o de lily, deitados no chão, um grande livro sobre os planetas na mão dela, a voz calma e infantil da menina de 8 anos. Contava aqueles termos técnicos para o irmão, como se fosse uma simples história magica.Aquele momento comum entre irmão foi diferente naquela tarde, a diretora do Orfanato chamando os dois. A menina ja sabia o que viria antes mesmo de entrar naquela sala aquela noite. Os pensamentos da diretora sendo altos demais . O casal naquela sala que iam realizar o sonho de ter um filho, mas eles queria apenas uma das crianças, queriam apenas o pequeno Chris. Só ele e iria embora no dia seguinte, justamente no aniversário dele, logo pela manha.Ela ja ia completar 9 anos, ninguém queria crianças dessa idade, principalmente com a historia que ela tinha, as vivências dela.Naquela noite, lily foi ate a casa da arvore, sabia que ele estaria la, escondido debaixo da cama, agarrado com um ursinho de raposa que os dois tinha feito juntos. Ele chorava alto, mas não era isso que fazia doer era a dor dentro dele que machucava maisA menina se esgueirou para baixo da cama tambem, ele se aproximando para abraçar ela.— Eu não vou — Murmurou contra o pescoço dela. — Não vou sem você.— Eles querem ser sua familia meu amor. — A loira disse calma, mas chorava por dentro. — Eles são bons, eu sinto isso— Eles não são minha familia, você é, você prometeu que a gente ia para as estrelas um diaA voz chorosa dele ficou ainda mais alta, a dor dentro dele aumentando ainda mais. Naquele momento ser telepata era um fardo pessado demais pra alguem de 8 anos.Ela não respondeu. Ficou só segurando ele, o choro molhando o ombro dela. Ficaram ali ate que ele dormisse ao lado dela. Ela saiu com ele debaixo da cama e se sentou no colchão, o colocando sobre seu colo.Sabe aquele momento onde você se pergunta o que faria caso pudesse tirar a dor de quem você ama? Então, ela podia. Aquele julgamento de o que é certo ou errado, mas não iria fazer aquilo por mal, iria fazer pra que a pessoa que ela mais amasse fosse feliz.As lagrimas desceram rapido pelo rosto dela, seus olhos se fechando, ela indo contra o proprio ego, mas precisava fazer aquilo. Precisava fazer com que ele a esquecesse.— Eu te amo minha estrelinha.A garota deu um beijo na testa do irmão e terminou o que tinha que fazer, foi a primeira vez que mexeu com a mente de alguem, a primeira fez que teve certeza do quão poderosa poderia ser... quando apagou a si própria da mente dele.No dia seguinte ele foi embora, ser dor, sem medo, só a alegria de uma criança de 5 anos, ao ir para sua nova familia perfeita, enquanto a pequena menina loira chorava naquela casa da arvore, o ultimo lugar onde foi lembrada pelo seu irmão.O lugar onde ela aprendeu que as vezes amar, é deixar a pessoa que mais amamos nos esquecer.
ིུ 📽️ 𖥨Turno 2 : OS FROST⚠️ Alertas: Abuso emocional e psicológico infantil · Negligência parental · Ansiedade e ataques de pânico · Uso de medicação · Dissociação · Trauma ⚠️Estar vivo, o que era estar vivo? Filósofos tinham suas teorias, tenham suas teses. Amar, pensar, respirar? Todas podiam estar certas, mas tinha uma que tinha um peso a mais pra loira. Estar vivo é ser lembrado. E tinha uma pessoa que ela queria que estivesse morta par sempre, mas que ainda lembrava.Lily estava com Nora e Vivi, se arrumando para a festa que teria, conversavam, riam, dancavam e se maquiavam. Lily gravava as amigas e então a notificação.O numero salvo como advogado e a mensagem "Senhorita Besatt, precisamos nos falar segunda feira, é Referente aos bens da família Frost".Lily desaprendeu a respirar assim que leu aquela simples mensagem. Releu uma, duas... tres vezes, como se isso pudesse mudar o que estava escrito ali. Se levantou forçando um sorriso, pediu licença as amigas e se afastou, mentindo sobre atender uma ligação. Só precisava de ar, precisava respirar um pouco.Seu coração estava disparado, sentia a tontura chegar, mas tentou se controlar. Não era o fato da herança que a abalou, foi algo mais profundo, a lembrança de Eliot Frost, seu pai.O nome Frost ecoou dentro da cabeça dela uma vez a mais, e o alívio que sentia enquanto se arrumava com as amigas foi embora como fumaça. Porque Frost não era só dela.Frost era dele também.Ela não criou a ilusão porque queria. Nunca criava, esse era o karma especifico daquele poder, que as coisas que ela menos queria ver eram exatamente as que apareciam sem convite, sem permissão alguma. O cérebro não distinguia proteção de tortura. E no caso do pai, ele estava tão impresso nela que bastava o sobrenome, bastava o cheiro, bastava uma manhã que desabava do jeito errado.Ele estava ali. Não de verdade. Ela sabia que não era de verdade, pelo menos essa parte dela ainda funcionava, ainda conseguia nomear o que era real e o que era construção da própria mente. Mas saber não adiantava nada quando a ilusão tinha a mesma altura dele, o mesmo jeito de a encarar com nojo, o mesmo cheiro misturado com bebida cara e charuto."Você acha que merece alguma coisa?"A voz não era dele. Era dela imitando ele. Ela, aos vinte e um anos, ainda tão fluente no idioma do pai que conseguia reproduzir cada expressão sem esforço.Esse era o ciclo. Ela conhecia esse ciclo, muito melhor do que gostaria .Cinco anos, uma garotinha de cabelos loiros, deitados em um colchão no chão, dentro de uma cabaninha. O quarto cheirava biscoitos que uma das empregadas tinham levado para as crianças.No peito de lily um menino, dois aninhos, sorria ao olhar as fotos de constelação no livro que lily lia a ele. Um lugar calmo, quase magico.O resto da casa estava em silencio, eles estavam sozinhos, a baba saiu para ficar com o namorafo enquanto fingia que cuidava das crianças. Os funcionarios ja tinham ido embora, a mãe saiu um pouco mais cedo, ia para as festas onde quando voltava, lily tinha que ouvir os pensamentos nojentos de o que aconteceram naquelas festas de luxo. E por fim seu pai tinha saido para beber com outros riquinhos como ele.Mas o silencio foi tomado por barulho, veio da sala primeiro. Sempre vinha da sala primeiro, algo de vidro talvez?Depois algo de madeira. Depois o silêncio específico entre uma coisa quebrada e a próxima, que era quase pior que o barulho porque significava que ele estava parado, estava decidindo qual seria a proxima coisa a quebrar.Lily tinha cinco anos e já sabia o que significava.Ela pegou Chris pelo braço com cuidado, firme, mas com cuidado e abriu o armário.— Vamos brincar?? A gente vai brincar de estar no espaço, igual no livro que eu tava lendo. Você fica aqui dentro que é a nave e não sai até eu falar, tá?Chris, que confiava nela com aquela confiança sem reservas que só crianças de dois anos conseguem, entrou sem perguntar.Ela fechou a porta, ficou de frente pra ela por um segundo.E então foi.
Ela havia pensado, e essa era a parte que ainda doía de um jeito específico, a ingenuidade daquilo, a coragem estúpida e inútil que conseguia ajudar. Que se entrasse na cabeça dele, que se encontrasse o lugar onde a raiva ficava guardada, ela poderia fazer alguma coisa. Acalmar, desviar aquela raiva... Qualquer coisa.Era só uma criança. Ela não sabia ainda que tem raiva que não tem fundo, que tem ódio que não é sobre você mas que pousa em você do mesmo jeito, que algumas tempestades não passam só porque você vai até elas de mãos abertas.Ele não bateu.Ela havia aprendido, com o tempo, que isso era o que sua mãe dizia quando queria minimizar as atitudes do marido " ele nunca bateu, poderia ser pior, você sabe como é".Como se machucado tivesse um único formato. Como se as palavras que ele jogava em em cima daquela criança de cinco anos não tivessem peso, não tivessem volume, não ocupassem espaço dentro de um peito pequeno que estava tentando entender o que havia feito de errado.Os dedos dele contornaram os bracinhos dela, abertando forte, ela conseguia sentir o cheiro da bebida, o que revirava o estômago da menina, a jogou pra um canto, logo em seguida o barulho de um enfeite de vidro se quebrando ao lado dela, os cacos batendo na pele delicada da menina, deixando cortes, não fundos, ams ainda as marcas.— Limpa essa merda — a voz dele soou embarganhada, mas ainda com nojo. — Sua demoniazinha.E ela não chorou. Não ali, não na frente dele. Havia aprendido que chorar era combustível, que mostrar que doía era dar a ele a prova que aquilo a machucava. Se abaixou começando a pegar cada um dos cacos, como se fosse ela quem tivesse feito a bagunça.A ilusão ainda estava ali quando Lily voltou pro presente.Ela estava de pé no meio do banheiro de vivi, lily tentava puxar o ar que não vinha de jeito nenhum. A figura do pai não fazia nada, só a encarava pelo espelho, nunca fazia nada, era só a presença dele que bastava, aquele jeito de existir no espaço que dizia "eu ainda estou aqui", "eu ainda estou dentro de você", "você nunca vai ser só sua."Lily olhou pra ele por um tempo longo.— Você morreu — ela disse em voz alta. Não com raiva, só como um fato, enquanto tirava um pequeno comprimido da bolsa e colocou na lingua, o engolindo no seco mesmo.A ilusão não respondeu. Ilusões não respondiam, esse era o único conforto, ela ainda controlava o roteiro mesmo quando não controlava o elenco.Ela pegou o celular. Releu a mensagem. O sobrenome que ela havia carregado como um peso, como uma marca, como uma coisa que existia nela antes que ela pudesse escolher qualquer outra coisa.
Agora era dela de um jeito oficial, assinado, cartorialmente confirmado.Ela desligou o celular, mas ele ainda esta ali, respirou fundo, tentando fingir que nada havia acontecido e voltou para o quarto com as amigas, fingindo estar tudo bem, mesmo claramente não estando. Mas pensaria naquilo depois e não agora.
ིུ 📽️ 𖥨Turno 3: DESCONTROLE
⚠️ Alertas de conteúdo: Trauma · Abuso emocional e psicológico · Abuso físico · Ansiedade e ataque de pânico · Dissociação · Perda de controle de habilidades · Culpa e autopunição · Ilusões e perda de contato com a realidade · Colapso físico e mentalA noite anterior havia custado mais do que ela havia calculado. A festa de Nora, sua melhor amiga e pessoa favorita do mundo, tudo tinha sido perfeito, Nora se divertiu, seus outros amigos se divertiram tudo como deveria ser.
Para dar um presente para a sua melhor amiga, ela tinha usado seus poderes de ilusão com a precisão de uma artista e havia valido cada segundo. O que ela não havia calculado era o custo.Os poderes não funcionam separados das emoções, ao contrário eles nasciam delas, se alimentavam delas, e quando a fonte ficava instável, o controle desaparecia junto e quando ela estava em caos internamente, era preciso apenas de uma faísca para tudo explodir. Ela sabia disso, sempre soube, só havia escolhido ignorar por uma noite, aquela única noite.
Na manhã seguinte estava lá, no local onde seus pesadelos ganhavam vida. O escritório ficava no trigésimo segundo andar de um prédio que Eliott havia mandado construir com o nome gravado na fachada em letras de aço escovado.
Frost.Parada na calçada ela olhava as letras, por mais tempo do que deveria, aquele gosto amargo se formando em sua boca no simples ato de ler aquele nome. Parada enquanto seu celular vibrava em sua mão, mensagem chegando, seus amigos conversando no grupo deles, outras mensagens diretas para ela, que respondia como se tudo não estivesse um caos, ninguém podia se preocupar.
Pessoas passavam por ela em ambas as direções, o movimento normal de uma segunda-feira à tarde, cada uma com o próprio peso, cada uma com o próprio barulho interno. Mas naquele maldito dia, Lily escutava tudo.Não foi uma escolha, ela não queria de fato não queria. Em dias normais havia um filtro, quase como uma fina camada de controle que separava o que ela permitia entrar do que ela conseguia manter do lado de fora. Em dias normais ela conseguiria estar em público, conseguiria ser uma pessoa normal em meio a tantas outras pessoas, mas aquele não era um dia normal.
As vozes ressoavam em sua mente: “Preciso entregar esse relatório”, “Ela não me ligou de volta, será que..”, “Odeio segundas” , “Como eu esqueci que era meu aniversário de casamento?”. Todas ao mesmo tempo, sem pausas, sem vírgulas, apenas uma sinfonia de pensamentos que nem deveria estar escutando.
O escritório cheirava a papel velho e a decisões que não queria ser obrigada a tomar. Lily sentou na cadeira de couro escuro com a postura de sempre, ereta, levemente inclinada para frente, o tipo de postura que dizia estou bem antes que alguém tivesse a chance de perguntar. Seus olhos percorreram a sala com calma, ela estava silenciosa, era bem decorada, simples, mas ainda causava aquela sensação que ela não sabia definir.Então o Advogado chegou, doutor Matheus , um homem alto, forte de pele retinta e um sorriso gentil, Lily o conhecia. Ele foi o mesmo advogado responsável pelos papéis de sua adoção e de tudo que remetesse ao jurídico. Ele a cumprimentou antes de sentar do outro lado da mesa.
Arrumou os papéis na frente da garota e então começou a falar, ela ouvia ou pelo menos fingia muito bem isso. Sua mente não conseguia se concentrar quando conseguia captar cada pensamento que acontecia naquele prédio. Ouvia apenas palavras soltas vindas de Matheus com aquele sotaque carioca.“Eliot… A Industria… Pessoas que deveria conhecer… Frost”.O sobrenome Frost, o sobrenome que ela carregava no meio do próprio nome como uma cicatriz que nunca sarou direito. Ela sorriu para o homem quando ele fez uma pausa. Um sorriso fácil, luminoso, o tipo que chegava antes de qualquer pensamento.
A primeira ilusão foi pequena. Quase imperceptível.
A parede atrás do advogado piscou, por uma simples fração de segundo, o papel de parede bege se tornou o papel de parede florido da casa da família Frost, e Lily prendeu a respiração até ele voltar ao normal. Matheus não havia notado. Continuava falando sobre transferências de patrimônio, sobre responsabilidades, sobre um legado e essas coisas.
Ela apertou os dedos sobre o próprio braço, suas unhas sendo marcadas na pele. Não conseguia respirar direito, mas sorriu de novo
A segunda ilusão não foi pequena.
O escritório parecia tremer. O advogado levantou os olhos dos documentos com uma expressão confusa, preocupada com a menina…— Tudo bem, senhorita Besatt?
— Claro. — A voz saiu calma, como se fosse apenas uma verdade normal saindo de seus lábios. Ela era muito boa nisso. — Pode continuar.
Mas por dentro, o mundo derretendo…desabando.
Chris. O menininho ainda como uma criança, aparecendo atrás do homem engravatado, como uma ferida que ainda não havia cicatrizado, que provavelmente nunca cicatrizaria. A culpa de um erro que cometeu aos 8 anos.
…
Ela não se lembrava de ter saído do escritório.
Lembrava da porta, do elevador, do sol do lado de fora agressivo, implacável, do tipo que queimava em poucos minutos andando ali. Lembrava de ter caminhado sem destino por um tempo que poderia ter sido minutos ou horas, os poderes escapando, já não sabia mais o que era real ou uma mera ilusão dela.
Um homem na calçada parou, olhou para o lado com uma expressão de quem viu algo que não deveria existir, e continuou andando. Ela não queria saber o que ele havia visto, mas conseguia escutar. As vozes pareceram ficar mais altas, muito mais altas, gritando dentro de sua própria mente.
O celular vibrou no bolso. Ela olhou para a tela, o nome de Nora piscando, ela respondeu daquele jeito alegre que não combinava nada com a menina naquele momento, mentiu para a amiga, falou que viajaria com seu pai adotivo e então desligou o telefone. Não porque não se importasse. Porque se importava demais para deixar alguém a ver daquele jeito, eles poderiam se machucar e isso ela nunca perdoaria.A praia estava quase vazia quando ela chegou, desceu até a areia úmida, tirou os sapatos, e ficou de pé olhando para o mar com a expressão de alguém que está tentando, com muita força, não estar em nenhum outro lugar. O vento era cortante, as ondas se quebrando em seu pé. Ela respirou fundo e esperou que o resto do mundo parasse.
Mas não parou. Mais uma ilusão chegou devagar, como névoa a areia ao redor dela mudou de cor primeiro, ficando mais escura, úmida demais, e ela piscou tentando desfazê-la, não desfez. O céu acima encolheu, as nuvens se transformaram no teto baixo de uma casa que ela conhecia demais, Lily apertou novamente as unhas em sua pele, forte o suficiente para machucar, o suficiente para uma gota de sangue escorrer. Os pensamentos dos outros parando.
“Praia. Você está na praia.”
Mas a praia não estava mais lá, o que estava era o corredor longo com aquelas paredes, com aquele bege envelhecido que não era confortável, era apenas neutro o suficiente para não chamar atenção. Ela conhecia cada quadro pendurado, cada mancha imperceptível no rodapé. O cheiro era o mesmo: madeira cara e velha. Ela reconhecia tudo porque era a mansão Frost.“Não. Não, não, não “Ela se virou procurando a saída e encontrou outra porta. Abriu outro corredor, mais longo, as paredes pulsavam levemente, como se respirassem, e Lily percebeu com um horror muito específico que não estava vendo a casa de verdade estava dentro da própria ilusão, presa nos labirintos que ela mesma havia construído.
Os poderes não a obedeciam mais. Estavam a obedecendo ao que ela sentia e naquele momento ela sentia pânico.
A voz veio de algum lugar atrás dela baixa demais, familiar demais. Ela não precisou virar paгa saber quem era. Havia passado anos tentando não ouvir mais aquela voz e a mente dela a havia guardado com uma fidelidade cruel, cada inflexão intacta, cada pausa calculada.
“Não é real, Não é real, Não é real.’
Mas as mãos que a seguraram pelo braço pareciam reais. A pressão era real, a dor era real. O aperto, aquele aperto específico, firme demais para ser acidental e forte o suficiente para deixar marca era o tipo de coisa que o corpo não esquece mesmo quando a cabeça tenta.
Lily caiu de joelhos na areia.
Areia. Havia areia sob as palmas das mãos, ela focou nisso a textura áspera e real, os grãos frios, o peso do próprio corpo pressionando contra o chão. O corredor piscou, a casa tremeu. O mar voltando, ela estava em um lugar afastado da praia, as árvores em volta destruídas, a areia ao redor de si bagunçada, o corpo dela desabou ali mesmo, tinha sangue escorrendo da sua boca e de seu nariz, manchando sua pele e sua roupa clara.Não sabia o que tinha causado aquela destruição, mas sabia que estava de volta a realidade, as vozes distantes em sua mente a lembravam disso. E então o mundo escureceu por completo, desmaiando ali mesmo na areia.
ིུ 📽️ 𖥨Turno 4: APAGANDO AS MEMORIAS⚠️TW. Dissociação emocional, pensamentos autodepresiativos, isolamento e apagamento de memoria⚠️O que fazer quando seus pensamentos se misturam tanto com os outros que ja não sabe mais os quais lhe pertencem e o que pertence aos outros? A linha de sentir e pegar o que os outros sentem, era uma linha extremamente fina.Naquela manhã Lily ainda tentava entender o que tinha acontecido no dia anterior, ela nunca havia ficado tão instável, tão fora de controle antes, pelo menos não a uns bons anos. Sentia o corpo doer, a cabeça parecia que iria explodir a qualquer segundo, pensou seriamente em pegar o jatinho e viajar pra uma ilha bem longe, mas não fez.No dia anterior uma chavinha se virou na cabeça dela depois de uma briga, com uma das pessoas que ela mais considerava "Você é egoista, teimosa e burra Lily, isso vai te deixar sozinha e você merece", as palavra ecoavam em sua mente, porque no fundo ela realmente acreditava em tudo isso.Mas se ate a pessoa que ela confiava falou isso pra ela, qual era a visão que os outros tinham? passou a vida toda querendo ser a menina perfeita, a que sempre tava ali pelos outros, mas quem estava ali por ela? Esse pensamento crescia dentro de si como uma voz.E pela primeira vez em anos, ela não ligou de usar suas habilidades, não nos outros mas em si mesma. E assim iria fazer, no observatório da faculdade, queria pelo menos ver algo que trouxesse conforto a ela, mas pra isso precisaria pegar a chave com o professor orientador, o que não era facil, a não ser que manipulasse ele, e os pensamentos daquele homem era nojentos. Não foi dificil achar algo ali."Serio professor Lee, sabe acho que o diretor e a sua esposa ia gostar muito de saber o que o senhor faz pra suas alunas se sairem tão bem nas provas"Ele a deixou sair da sala com a chave, podia jurar que o homem ficou brando igual um papel.Foi pro observatório la se sentou no chão frio de marmore. Passou quase uma hora ali e quando saiu, se sentia mais leve, não por tranquilidade, por vazio mesmo.
Ela não sentia mais dor e desespero naquele momento, isso porque não sentia nada. Apagar memorias ruins era legal na teoria, mas quais os efeitos quando era feito em si mesma?
ིུ 📽️ 𖥨 Turno 5: LABORATORIO
⚠️Dor física intensa e sofrimento;
Autolesão involuntária ; Dinâmica de poder desequilibrada ; Trauma e supressão de identidade ; Sobrecarga sensorial⚠️
ིུ 📽️ 𖥨 Sexta feira _ 20 . 03Família. Do latim...Como se a origem da palavra importasse para alguém de verdade, pra alguns familia era amar e nunca esquecer, pra outros confiança.O cinema mentia bem, isso sim. Mostrava jantares barulhentos, brigas que terminavam em abraços, pessoas que corriam no aeroporto por amor. Bonito conveniente.Para Lily, durante muitos anos, família era uma equação simples e fria: "utilidade". Sua existência era interessante o suficiente para mantê-la ali, como se fosse uma peça rara numa coleção particular, valiosa demais para jogar fora, ordinária demais para tratar com cuidado. Não havia amor, havia apenas necessidade. E quando a necessidade acabasse, ela sabia que o que restaria seria apenas o silêncio educado de quem descarta algo sem culpa. Exceto por uma pessoa.Rosalia Frost.Claramente louca, isso nem era discussão. A mulher caçava criaturas não-humanas com a mesma energia que outras pessoas cultivavam alface no jardim. Fazia experimentos. Tinha um laboratório que parecia cenário de filme de terror europeu dos anos oitenta. E mesmo assim, desde o primeiro dia, soube exatamente o que Lily era e nunca, nem uma única vez, levantou a mão contra ela, ao contrário dos próprios pais.Havia algo em Rosalia que escapava de qualquer explicação racional: um afeto real, quase inconveniente, quase embaraçoso de observar numa mulher que dissecava aberrações sobrenaturais com o mesmo entusiasmo de uma criança montando lego. Ela não dizia "eu te amo". Os Frost não faziam isso, mas ainda ensinava, protegia à sua maneira estranha e torta, mas ainda ali.Empurrava Lily até os limites, não para quebrá-la, mas para ter certeza absoluta de que ela não quebraria.Foram quase doze anos sem notícia, desde que lily tinha sido adotada e se mudado. E então, na quinta-feira no meio da madrugada, Lily digitou três palavras.📲 Preciso de ajuda.Trinta segundos, ou nem isso. Uma localização. Uma mensagem curta: "Me encontre aqui às 3 horas."Nenhum "como você está?", nenhum "quanto tempo", nenhuma pergunta desnecessária, aquilo era bem Rosalia.ིུ 📽️ 𖥨 MAIS TARDE NAQUELE MESMO DIA.O prédio parecia saído de um jogo de zumbi, o tipo onde o personagem começa sem munição e já sabe que vai morrer antes de chegar na segunda sala. No meio do nada, com aquela vibe específica de lugar que ou foi abandonado há décadas ou nunca quis ser encontrado. Lily reconheceu antes mesmo de sair do carro.O antigo laboratório.Ela entrou devagar, como se barulho fosse acordar alguma coisa adormecida ali dentro. As memórias vieram sem pedir licença, não as bonitas, porque bonitas eram poucas, mas as honestas. Dias inteiros em salas com isolamento acústico, onde o silêncio era tão completo que ela conseguia, pela primeira vez na vida, ouvir apenas seus próprios pensamentos só os seus, sem o ruído constante e exaustivo. Mas com os próprios medos e inseguranças.Lily não era paciente de Rosalia. Era experimento, com toda a carga que essa palavra carrega.Saía da sala apenas quando completava algum desafio proposto pela tia, nada que uma criança normal consideraria razoável, mas Lily havia desistido de se comparar com crianças normais por volta dos seis anos. Rosalia não queria machucá-la. Queria ter certeza. Certeza de que a sobrinha não era um monstro e principalmente certeza de que conseguiria viver, de verdade viver, com a nova família que estava por vir, sem ter que carregar o fardo de uma coisa que não teve escolha, por algo que Elliot escolheu aquela noite e não ela.Era amor do jeito mais disfuncional e científico possível? Sim, mas ainda era amor.— Distraída com o passado como sempre, Narcisa?O sorriso apareceu antes mesmo de ela se virar, aqueles involuntário, do tipo que o aparecem antes que a cabeça autorize.Rosalia Frost estava exatamente como Lily guardava na memória, com pequenas mudanças do tempo: pele levemente marcada pelos anos sem revelar quantos, o mesmo jaleco que provavelmente nunca tinha parado de usar, o mesmo olhar cego que via tudo, loira como sempre, estranha como sempre.Viva, o que não era garantido dado o estilo de vida da mulher.— Pensei que estava mortaLily disse, com aquela leveza calculada de quem usa o humor como armadura— Mas olha, tenho que falar, tá ótima pra quem é um fantasma pra família inteira.Rosalia não respondeu com palavras. Avançou e abraçou a sobrinha com uma força que desmentiu completamente a compostura seria. Lily ficou parada por meio segundo e então retribuiu com a mesma intensidade.Conversaram por horas. Lily falou, o que por si só já era extraordinário, sobre os últimos dias, os acontecimentos, as coisas que não conseguia mais ignorar. Rosalia ouvia e anotava com aquela atenção clínica que qualquer outra pessoa entenderia como frieza, mas que Lily havia aprendido a ler como a forma mais alta de respeito que a tia conhecia: você importa o suficiente para eu documentar.O dia inteiro passou assim.Lily não avisou ninguém. Não porque não fosse importanre, sabia muito bem o que estava fazendo. Sabia também, com aquela certeza tranquila e um pouco triste de quem já testou a teoria, que ninguém iria procurá-la.No laboratório, fez testes que a levaram ao extremo, reviveu os limites, descobriu novos. Seu corpo chegou ao limite, desmaiou mais vezes do que conseguiu contar, se machucou, se passou. Mas pela primeira vez em quase dez anos, o único barulho que ouvia eram os seus próprios pensamentos.ིུ 📽️ 𖥨 21 . 03 - 03:15 - Laboratório [localização- desconhecida]Lily ficaria ali mais um dia provavelmente, seu corpo estava esgotado, mas as duvidas não sumiam, não conseguiu descobrir como ela destruiu metade das arvores de uma praia e muito menos o porque suas ilusões estava afetando a realidade... Olhou o celular, estava sem sinal...ིུ 📽️ 𖥨 Dia 21.03 - 13:15 [laboratório- localização algum lugar ao redor da Baia]Rosalia não a preparou para o ambiente antes de começar seus "testes".A mulher Loira tinha uma honestidade quase brutalidade, que provava e que não escondia que aquilo ia ser difícil e doloroso. Pegou um caderno, lily reconhecia, deu um clique na caneta e a olhou.— Começa pelo básico. Quero ver o que mudou.Básico era uma palavra ironica.Lily quase riu.ིུ 📽️ 𖥨 Primeiro testeA primeira hora foi quase gentil.Os famosos testes de alcance, até onde ela conseguia captar pensamentos sem esforço consciente. A mais velha ficava do lado de fora do quarto de vidro , concentrada em sequências específicas, e Lily precisava descrevê-las com precisão. O tipo de exercício que ela conseguia fazer dormindo, pelo menos conseguia antes de
tentar por anos fingir não ter poderes.— Vinte e dois por cento de precisão. Piorou muitoA tia anotou, sem tentar parecer gentil.— Obrigada, muito encorajador suas palavras.— Não estou aqui pra ser motivadora, você captava os pensamentos das pessoas a quase 500 km de distância e agora ta sofrendo pra escutar alguem no limite da cidade que não fica nem a 70 km daqui.... De novo.Ficou mais duas horas, não conseguia, no começo as vozes vinham limpas, mas se perdiam e se misturavam quando chegavam a mente da garota. Tentou de novo e de novo, ate conseguir Oitenta e oito por cento.— Melhor. Quando você para de se sabotar, pelo menos.Lily não respondeu. Sabia que era verdade.ིུ 📽️ 𖥨 Segundo testeO segundo teste, foi quando as coisas começaram a ficar interessantes, a palavra que a mulher mais velha usava para situações que qualquer outra pessoa chamaria de preocupantes.Amplificação forçada.A sala tinha sido preparada com antecedência, as paredes com caixas de som, o chão acochoado. Lily percebeu isso agora, tarde demais. Não havia isolamento acústico desta vez. Os receptores distribuídos pelo ambiente, calibrados para captar e devolver, amplificados, tudo que chegasse até ela.O primeiro pulso chegou como um soco atrás dos olhos. Não havia outra descrição para aquilo era dor física, localizada, a sua mente forçada a processar um volume que não estava preparada para receber. Como se centenas de caixa de som de festivais, tocassem ao mesmo tempo em sua cabeça.Pensamentos que não eram dela invadiram em camadas, fragmentos de memória de Rosalia, registros clínicos, observações frias sobre a própria Lily escritas em negrito.Ela se segurou na mesa.— Respira — a voz da tia, de longe. — Não tenta bloquear elas, as deixe simplesmente passar.— Fácil pra quem tá do lado de fora — A loira respondeu rude, seu corpo jogado contra o chão, encolhido demais.— Foco.Quinze minutos. Rosalia cronometrou com precisão, como sempre. Mas para a jovem, pareceu o dobro de uma vida inteira.Quando acabou, havia sangue no canto do seu lábio, havia mordido sem perceber, tambem linhas de sangue em seu braço, novamente tinha se furado com as proprias unhas. Rosalia anotou tudo isso. Aproximou do quarto de vidro.— Tem duas horas pra descansar antes que eu continue.Disse firme, mas ainda deixou a menina ali. Algumas horas para descansar, antes dos piores testes, o qual mexeriam em um lado adormecido da garota. Que ela não sabia ainda, mas não estava preparada para encarar.
ིུ 📽️ 𖥨 Turno 6: OS CADERNOS
⚠️ Trauma de abandono . Pânico e colapso emocional . Temas de morte e rituaisིུ 📽️ 𖥨 24 . 03 . 2026 pt 1Saber quem você é, algo que todos sonham e buscam. Qual o sentido da vida? O que eu nasci pra ser? Existe um caminho certo?Perguntas e mais perguntas, nunca respondidas, talvez realmente tenha um significado ou talvez não, o que realmente importava?Pra pessoas como Lily, saber que você mesmo é, não importa, porque de qualquer jeito você tem que se esconder. Nunca entendeu o por que era diferente. Seus irmãos eram crianças normais, tinha que ser justo ela a ser a diferente, ela queria uma vida normal e em troca... ganhou uma vida de mentiras e solidão.Afinal, como você deixa alguem perto, se sempre na sua cabeça volta a ideia de abandono."Você é uma aberração, ninguem vai te querer por perto, você traz morte, você traz dor, ninguem vai querer te der, sabe por que... porque você não merece."Lindas palavras né? Principalmente para uma criança escutar desde os 2 anos, quanto tentava fazer amizades.Mas ela foi contra por muitos anos, conseguiu ser social ou pelo menos tentava. Vivia no calma, escondendo de todos que ela tinha poderes.Mas o que acontece quando diarios de seu pai são entregues a você? Isso mesmo, você remexe no seu passado e era obvio que Lily iria fazer isso, passou 20 anos não sabendo quem era e as respostas agora estava bem ali, nas mãos dela. Aqueles diarios.Passou a madrugada inteira tentando desvendar aquele primeiro caderno, nada que chamasse atenção ate uma específica.A página que dizia sobre o que Elliot precisaria para aquele ritual. Aquela página que fez a loira parar sentindo o coração falhar... Ela era a unica filha biologica, o ritual iria ser feito no dia do seu suposto nascimento... pela primeira vez o panico tomos Lily, não pela duvida, mas por saber que aquelas palavras podiam ser verdade.Pegou a folha de jornal e as páginas do caderno, tudo batia... as datas, os acontecimentos...NÃO PODIA SER VERDADE. PORRA NÃO PODIA. ELA NÃO ERA UM DEMONIO, NÃO PODIA SER, JA SE ODIAVA O SUFICIENTE, NÃO PRECISAVA DE MAIS UM MOTIVO PRA ISSO.Precisava descobrir e só tinha uma maneira de descobrir isso... Se aquelas anotações fossem verdades, teria uma certidão de óbito, uma certidão de óbito dela, do dia em que nasceu e sua vida ja fora ceifada, apenas pra um maniaco fazer a porra de um ritual.

ིུ 📽️ 𖥨 TURNO 8: A FUGA⚠️ Morte . Manipulações . Culpa e vergonha . Dissociação. Sangue . Colapso emocional . Violência . Coma# ིུ 📽️ 𖥨 FazendaSabe qual é a parte boa de estar no fundo do poço? É que o único lugar que você pode ir é pra cima.Uma clara mentira contada em historias.Uma mentira bonita, dessas que a gente repete pra sí mesma, ate que realmente começasse a acreditar. Lily estava no fundo do poço, sabia disso muito bem, o fato de estar naquele momento embalando as próprias coisas provava isso, continuava fechando mais uma caixa com fita adesiva, os movimentos mecânicos, o olhar vazio, a cabeça em algum lugar entre aquele quarto e as páginas dos diários que ainda ardiam estavam vividas em sua memória, a respiração falha por conta dos machucados recentes.Os diarios ainda jogado sobre a cama, eles pareciam gritar. Não sabia como, mas as palavras ali fizeram com que o mundo inteiro de Lily desabasse, bem na frente dos olhos dela. A culpa por algo que nem controle ela tinha. Culpa por algo que o pai obrigou ela fazer varias e varia vezes.Ela ia embora, deixar tudo pra tras pra simplesmente virar um ratinho de laboratório da próprio tia. Não tinha coragem nem pra se despedir dos amigos, nem mesmo de Nora.A ideia de dizer adeus doía de um jeito fisico, que nascia como um aperto no peito e descia pro estômago. Era mais fácil assim, sumir silenciosamente, sem cerimônia, sem aquele momento horrível em que você olha pra alguém e tem que se despedir podendo nunca mais ver a pessoa. Ela era boa em sumir. Tinha praticado a vida inteira."É um recomeço."Dessa vez nem ela mesma acreditou.ིུ 📽️ 𖥨 Laboratórios Frost - Fora da cidadeA lua rosada brilhava no ceu, um fenômeno que Lily provavelmente estaria vendo no telescópio, mas não estava na frente do laboratório com duas caixas na mão.A porta estava aberta. Rosalina nunca deixava aquela porta aberta, pra uma caçadora, aquilo era muito perigoso.Lily parou no meio do corredor. As caixas pesavam em seus braços mas os pés simplesmente recusaram, e ela ficou olhando pra aquela fresta escura com um mal estar que subia pelo estômago devagar, uma sensação de que algo estava errado.Abriu a porta com o pé, com dificuldade, qualquer movimento fazia lily sentir que ia descusturar, mancando pelo corredor escuro ate a sala onde a mais velha sempre ficava.— TIAAAAAAAAAAAGritou, mas assim que abriu a porta da sala o cheiro forte feio como um soco, não era cheiro de produtos químicos, nem de reagentes. O cheiro ferroso, que ela conhecia, mesmo sem querer.A luz do corredor iluminava o laboratório em faixas fracas de luz, o suficiente para que ela enxergasse os vidros quebrados no chão, as anotações rasgadas. E depois como um pesadelo o vermelho, por um minuto a propria visão da garota falhou, a caixa em sua mão caiu, o som seco causado por ela quebrou completamente o silencio.Lily não piscou, os joelhos dobraram, dessa vez nem se importava mais com os machucados, suas mãos se agarraram no batente da porta com as duas mãos porque senão teria ido junto. No chão, no meio de todo aquele caos, estava o corpo da tia. Deitada sobre um símbolo desenhado com sangue, o corpo quase irreconhecível da tia ali no meio, o liquido carmim espalhado pelo lugar.— Não, não, nãoE então os flashs vieram.Ja entendia eles. Eram pessoas, muitas pessoas, ela conversava com elas, pareciam ser quem precisava de ajuda, pessoas boas que só estavam perdidas. Mesmo sendo um flash, ela sentia isso. A visão falhou, tudo ficou preto, antes de voltar pra outros flashs, essas pessoas... nesses mesmos simbolos... do mesmo jeito que a tia. Uma cena que sairia de um filme de terror.De onde eram aqueles flashs, ela não se lembrava, mas eles eram tão reais... A visão voltou pro corpo da tia, ela conhecia aquele símbolo, mas como?Estava no batente da porta ainda, os dedos ficando brancos pelo quão forte apertava o batente, não conseguia puxar o ar, dessa vez não pelo pulmão ferido, era pela dor.A memória grudou na garganta como espinho. Memorias apagadas não deveriam voltar, mas olha lá, ela estava novamente vendo as pessoas que ela ajudou a matar, que ela os levou ate o Elliot, por medo... pela propria vida e a do irmão mais novo, mas que ainda era ela quem fez.Os flashs sumiam e voltavam, homens, mulheres, adolescentes... todos os tipos de pessoas, todas com o mesmo fim. Todos trazendo a culpa pra dentro da loira.— PARAA palavra saiu rouca, falando com si mesma.— SÓ PARAAs lágrimas vieram sem avisoe com elas veio o tremor de seu corpo. Não era choro delicado. Era o tipo que vem de um lugar que não tem nome, que mistura tudo, a tia no chão, a culpa que sentia e os vinte anos de perguntas sem resposta e a exaustão de ser quem ela era.Desceu até o chão devagar, os joelhos tocando o frio dos pisos de cerâmicas. E foi exatamente aí, no momento em que todas as defesas foram abaixo ao mesmo tempo, que o calor apareceu.Não como uma febre. Como algo muito mais antigo que isso, como algo que tinha estado quieto por escolha própria e agora escolhia não estar mais. Subiu pelo peito com uma calma que contrastava com tudo ao redor, e então veio a voz, Lily escutava vozes, mas aquela era diferente. Não era de fora. Vinha de dentro. Do lugar mais fundo de seu ser, aquele que ela passava a vida inteira fingindo que não existia."Eu sei." Disse a voz, sem pressa alguma. "Eu vi tudo que você viu. Eu sempre vi."Lily não respondeu."Você tinha cinco anos." Continuou a voz, com uma firmeza que não era crueldade, era apenas a verdade. "Você tinha medo. Você queria ser amada. Você não sabia o tamanho do que estava fazendo."Ficou em silencio, apenas chorando. A cabeça doia, o odio tomava o corpo da garota, ela queria matar que tinha feito aquilo. Um calor preenchia seu corpo, como uma bomba prestes a explodir... A garota abraçou as próprias pernas, a cabeça doendo ja lhe causava enjoo e então uma explosão.Não veio de fora, veio dela, em um segundo estava chorando e depois uma luz forte, pareciam uma nebulosa...Quando a imagem de estrelas sumiram da mente da garota a unica coisa que viu foi fogo, o lugar que por mais que não fosse o sonho de uma criança... era onde ela passava dias sendo analisada, memorias, a tia deixando os próprios ideias de lado por cuidar dela. Tudo sendo devorado pelo fogo. Não conseguiu pensar, olhava para o corpo da tia, para o simbolo. A fumaça entrava em seus pulmões, a tosse vindo seca, dolorida, jurava que conseguia sentir os pontos de abrindo dentro dela.Tentou sair mas não conseguiu, o corpo vacilou antes disso, o ambiente começando a desbotar e o mundo simplesmente se apagou antes dela chegar na saida.Não sabe quanto tempo ficou desacordada, apenas que quando tomou o minino de consciência, ouvia o barulho de sirenes.Os Bips ritmados. Bip bip bip bip e derrepende um Piiiiiiiiii prolongado, a consciência se perdendo novamente.
📽️ 𖥨 Turno 8: O perdão⚠️ Recuperação de ferimentos. Culpa . Luto(Não é tw, mas temos reconciliações)ིུ 📽️ 𖥨 Hospital . 04.04.2026Hospitais. Era normal pessoas odiarem hospitais, alias estar la significava que você não estava bem. Mas pra lily aquele lugar tinha um outro significado um pouco mais complicado.Aquele lugar era o pior lugar pra se escutar o que os outros pensam, porque sejamos sinceros, os pensamentos ali eram dor, medo, desespero.... pensamentos de pessoas que tivam fé, outras que ja perderam, mas o que mais a machucava era ouvir os das crianças ali. Era por isso que Lilian odiava hospitais.LA morena tinha aprendido a contar os bips do monitor ao lado da cama quando os pensamentos ficavam altos demais. Um, dois, três. Um, dois, três. Era idiota mas funcionava.Ela ficou olhando pro teto com as mãos sobre o cobertor, os dedos entrelaçados, o lado esquerdo ainda com aquela dor surda que os analgésicos ainda não apagavam completamente. Cada expiração doendo como se ela estivesse novamente levando a mesma facada novamente.E então a porta do quarto abriu.Lily não olhou de imediato, tinha certeza que era mais um médico fazendo a ronda, mais uma aferição, mais uma pergunta sobre escala de dor de um a dez onde ela sempre respondia um número menor do que devia. Preparou a resposta automática, daquelas cheias de piadinhas que a garota sempre fazia para não preocupar.Ela olhou pra porta, mas a imagem não era do Médico. Qualquer respostinha engraçadinha sumindo na hora.Ele estava maior do que ela lembrava, mas os olhos verdes cheio de brilho e os fios loiros bagunçados, ainda era os mesmos.Haviam anos entre a última vez que ela tinha olhado pra ele, assim de perto, assim de verdade. Chris estava parado na porta com a mão ainda na maçaneta, os olhos dele brilhando, dessa vez de lagrimas, do mesmo jeito do ultimo dia que o viu no orfanato, antes dele ser adotado. Lily não sabia se estava alucinando... mas aquilo não podia ser real, ele não poderia estar ali.Mas estava.O monitor continuava bipando. Um, dois, três.— Oi Cissy.A voz tinha mudado, era claro que tinah, ele nãotinha mais 5 anos, tinha 17, mas havia algo no timbre que não tinha mudado, alguma coisa que o tempo não tinha apagado.Ela não conseguiu responder, abriu a boca e fechou. Tentou de novo.— Chris?Saiu fraca demais, e o nome saiu estranho de sua boca, real demais, como dizer em voz alta algo que ela tinha guardado em silêncio por muito tempo.Ele entrou. Fechou a porta atrás de si devagar, sem barulho, e ficou parado no meio do quarto como se soubesse que chegar perto rápido demais era a coisa errada a fazer. Como se tivesse analisando isso.— Eu fiquei sabendo pelo jornal. —O loiro disse. — Incêndio no laboratório, uma vítima e uma pessoa ferida.Lily fechou os olhos por um segundo.— Chris...— Não. Deixa eu terminar.Ela ficou quieta.Ele puxou a cadeira do canto do quarto e sentou do lado da cama, os cotovelos nos joelhos, os olhos fixos no chão por um momento antes de olhar pra ela. Havia tanto coisa naquele olhar que Lily teve vontade de desviar, aquele reflexo antigo de não aguentar ser vista de verdade. Mas dessa vez não desviou.— Eu sei que você apagou minha memória.Disse ele, direto, mas sem raiva também, o que fazia ser mais dificil de escutar.— Sei que vez pra me proteger. Mas alguma coisa sempre ficou, sabe? Não a memória em si, mas... Um resquício. Como quando você esquece o sonho mas o sentimento fica o dia inteiro.Lily sentiu a garganta fechar, a respiração ficou pesada, seu pulmão se esforçando para pegar o ar, aquilo doia, mas não sabia se era a dor do irmão ali ou dos pontos dentro do seu corpo.— Eu cresci sabendo que tinha alguma coisa que eu não sabia. E quando os meus poderes apareceram eu entendi mais ou menos o que era. Levei um tempo, mas entendi.Ele olhou pra ela.— Te achei nas redes sociais quando eu tinha uns quinze. Ficava olhando as fotos sem conseguir explicar por que me importava tanto.— Chris.A voz dela saiu baixa, as lagrimas descendo pelo seu rosto.— Você fez isso pra me proteger. Eu sei que foi. Eu sei como o pai era, eu escutava quando você se colocava la pra que ele não chegadse em mim.Lily virou o rosto pro lado. Odiava que a visse chorar, mas não tinha o controle. Ficou um tempo assim, sem coragem de o olhar, tentando segurar aquilo de volta pro lugar onde sempre guardava, mas dessa vez esse lugar estava cheio demais fazia tempo e não havia mais espaço.Sentiu a mão dele cobrir a dela sobre o cobertor. Não disse nada. Só ficou ali, e foi isso que quebrou o que restava.— Eu era uma criança.A voz saiu rouca, como se não tivesse força pra falar— Eu era uma criança e eu sabia o que ia acontecer com você se você ficasse perto de mim. Eu vi acontecer com outras pessoas. Eu sabia e eu não consegui... eu não conseguia te deixar ser mais uma.Respirou fundo, os pontos puxaram, mas continuou.— Mas eu nunca parei de... eu ficava te procurando em tudo, quando achava que alguém não estava olhando. Ficava vendo as fotos das suas competições de natação. Eu sabia que você tinha tirado a carteira de motorista semana retrasada porque você postou uma foto com a habilitação nova e fez aquela cara de bobo feliz que você sempre fazia quando...Parou. Chris estava olhando pra ela com uma expressão que ela não tinha palavras pra descrever.— Quando você me mostrava as constelações, com seus poderes?Ele completou calmo se levantando da poltrona para se sentar do lado dela.— De quando eu te mostrava as constelações.Ficaram em silêncio por um tempo, a mão dele sobre a dela, o monitor bipando no ritmo de sempre, a luz do corredor entrando pela fresta da porta. Um silêncio diferente do que havia antes.— A tia. Era difícil e complicada e passou anos me fazendo acreditar em coisas que não eram verdade sobre mim. Mas no fim... no fim ela sempre me ajudou, e vejonque te ajudou tambem. Eu não sei o que fazer com isso ainda.A voz saiu calma dessa vez com aquela dor do luto, ainda presente— Você não precisa saber agora. — Chris respondeu na hora.— Eu não sei o que fazer com nada.Continuou, e havia algo libertador em falar isso em voz alta, sem filtro, apenas a verdade que guardava atras de fuga.— Eu tenho vinte anos e meu pai queria me usar num ritual, minha tia morreu, eu tô num hospital com pontos que eu não contei direito porque não quero saber o número real, e a única coisa que eu consigo pensar é que eu deveria estar sentindo mais ou sentindo menos ou sentindo diferente do que eu to sentindo e eu nem sei o que eu... o que eu realmente to sentindo. E nem porque eu to falando isso...— Você não é a unica que pode controlar as pessoas Cissy, sou bom em tirar as verdades das pessoas, só com um toqueEle disse, simples, o olhar dela descendo para sua mão.— E isso se chama luto, é feio e é bagunçado e não tem forma certa. Você não precisa organizar isso agora. Você pode só... estar aqui. Machucada e confusa e com pontos que você não contou. Eu fico aqui.E havia algo nessas duas palavras, "eu fico", que Lily não sabia que estava esperando ouvir fazia quanto tempo.Não de um médico ou de pessoas que diziam aquilo por dizer, mas por alguem que foi ali porque quis, que tinha todos os motivos pra odia-la mas que tava ali.— Eu sinto muito.Ela disse, e dessa vez não era sobre a tia, era sobre os cinco anos dele, sobre a memória apagada, sobre todos os anos que não existiram entre eles.— Eu sei. Eu sei que você sente e eu tambem, por ter demorado pra aparecer.Ficou quieto por um segundo. A morena virou a sua palma pra cima devagar e ele entendeu com um sorriso bobo. Entrelaçaram os dedos, ela com os pontos e os curativos e o luto que ainda não tinha forma, ele com os anos de contorno sem memória e o caminho que tinha feito até aqui, e ficaram assim, os dois no silêncio.Pela primeira vez em muito tempo Lily não estava calculando o que dizer. Não estava administrando o quanto mostrar, não estava sendo mais forte do que era nem mais bem do que estava. Era só ela.Vinte anos, machucada, com saudade de uma infância que não tinha tido, com luto de coisas que não sabia ainda como nomear, com o irmão do lado que tinha encontrado o caminho de volta sem que ela pedisse.